quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A flor se faz semente

Fava de Bolota: a árvore ícone do estado do Tocantins inspira design com identidade.

A inspiração agora é semente. A flor da Fava de Bolota – árvore considerada símbolo do Tocantins – obedece ao ciclo natural e cede espaço às vagens. Antes de sair de cena seduziu, atraiu meu olhar, pautou a criação. Emprestou forma, textura e cartela de cor. Impactou com a beleza de uma primavera antecipada e em boa hora descortinou o espetáculo de pura emoção. Essência colhida também no nome e transformada na coleção de objetos voltados ao Projeto Mulheres do Tocantins. Na sensibilidade das mãos femininas torna a desabrochar em detalhes presentes na cerâmica, cestaria e têxteis com o perfume da identidade local, empreendedorismo e sustentabilidade.

Na culminância dessa consultoria assentada na fusão do design com o artesanato respiro celebração. Através do convite do Sebrae Tocantins e Projeto de Estruturação Turística de Taquaruçu (localidade que abriga a comunidade artesã) o aprendizado e experiências ao lado de mulheres tenazes e sonhadoras fortalecem meus ideais de profissão. Refresca reflexões de quanto o design está imbuído do poder de transformação social, do resgate da autoestima, da preservação do patrimônio tangível e intangível. É sempre surpreendente adentar um território, pedir licença aos seus habitantes e fazer uma imersão na identidade, na cultura impregnada pelos cantos, na poética da paisagem, na regionalidade dos costumes, no vocabulário particular, nos sotaques, nas conversas soltas e atos mais simples do cotidiano.

O resultado do leque de produtos da Coleção Fava de Bolota traz na estética um afago aos laços de pertencimento. É inspiração frondosa, de raiz profunda com os sentimentos da terra e ofícios herdados dos antepassados. Nas formas, cores e texturas os vasos, cestos, sousplats e brinquedos referendam o lugar de origem. Esculpem memórias, tecem narrativas, entrelaçam histórias de vida e unem poesia no ponto a ponto da delicadeza. O design expõe o traço apanhado da natureza e o calor de mãos ávidas pela metamorfose da matéria-prima. Mãos sutis que com urucum tingiram a fibra do buriti e a dominaram habilmente na trama secular da cestaria e na técnica do crochê. Mãos que moldaram a argila na riqueza das minúcias que imitam a realidade. Mãos que com linha e agulha fizeram da costura junção de vocação, ofício e tradição resguardando o molde da originalidade. Mãos que deixaram impressas as digitais do afeto. Em Taquaruçu uma primavera feminina demarca novas estações. Floresce um novo tempo. 








quinta-feira, 18 de maio de 2017

Território Sagrado

Rio Negro: símbolo de vitalidade do Amazonas e abrigo de mitos ancestrais.   
Estética, função, narrativas ancestrais atadas à trama, calor do feito à mão... e aura. Os vasos, cestos e luminárias que resultam da fusão do design com o artesanato - frutos do Projeto Brasil Original Amazonas – levam na essência as crenças e a espiritualidade dos artesãos. Carregam em si a autorização dos espíritos da floresta na colheita da fibra vegetal utilizada para dar forma às criações também inspiradas no habitat sagrado. Em cada objeto reside a ancestralidade e os vínculos místicos da “Gente Peixe”. Antepassados que segundo relatos orais das etnias de fala tukano e da tribo Tariana, deixaram o Lago de Leite – ventre materno de todos os povos - e na “cobra-canoa” seguiram o curso dos rios Amazonas e Negro até ancorar na região da nova humanidade.

As cidades de São Gabriel da Cachoeira e Barcelos – municípios amazonenses que abrigam comunidades indígenas e ribeirinhas do Projeto Brasil Original - estão nesse eixo sacro. Nada mais pisar o chão para sentir a energia que deles emana e a força proveniente da natureza. Céu, terra e água detêm uma espécie de poder supremo e nutrem a vida ao redor. Demarcam ciclos precisos para um universo alinhado a um tempo e razão de existir.  As conexões com o sagrado estão por toda parte. Dão sentido às normas, comportamentos e ritos dos grupos artesãos enraizados em territórios permeados de mistérios. Lugares de fertilidade onde a semente do nosso trabalho coletivo brota no âmago desse mundo particular.

Da fibra da piaçava, na inspiração que exalta o culto à natureza e na palma das mãos dos artesãos de Barcelos nasce a Coleção Buriti. Imponente palmeira da Amazônia, o buritizeiro enaltece as lendas e as múltiplas benesses em seu codinome de “Árvore da Vida”. Os indígenas Tapuia – que também margeiam a região do Alto Rio Negro -  creditam sua origem a um presente de Tupã, entidade sagrada simbolizada pelo trovão. A narrativa tribal resistente ao tempo explica que no alto da copa as folhas centrais de matiz verde esmeralda compõem uma coroa que adorna e protege a floresta. Reclama reverência e respeito pelo porte majestoso e a generosidade de seus frutos. Cachos que pendem do tronco robusto e alimentam a criação rica em detalhes na tessitura minuciosa que atravessa gerações. Como não ser sagrada?

Na imersão desse fazer artesanal, no convívio com pessoas únicas, na troca de experiências e na sutileza das infinitas histórias contadas pelos artesãos, alargo minha percepção e entendimento a despeito da espiritualidade e convicções. Os simbolismos entrelaçados aos pequenos gestos somam significados grandiosos. Amplio o olhar para os ritos que envolvem o feito à mão e aprendo a respeitá-los. A Mãe Terra é eixo, sentido, direção. É nela e para ela que as coisas orbitam na busca incessante do equilíbrio. O solo, o ar, os rios e as florestas guardam as divindades que guiam a jornada cotidiana. E tudo o que nasce, cresce e floresce nesse mundo das águas é dádiva e consentimento. Presente de outra dimensão.
A cidade de Barcelos ancora o Projeto Brasil Original Amazonas, ação do Sebrae-AM.
Sérgio Matos: designer consultor do Projeto Brasil Original.
Nas águas do Rio Negro Alva exibe o vaso da Coleção Buriti.
Artesã de Barcelos, Mara trama o exotismo da Coleção Buriti.
Matéria-prima da Coleção Buriti a piaçava ressignifica seu uso no artesanato local.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

De volta ao começo

Piazza Del Duomo: coração de Milão.
Respiro os ares de Milão. Em mais uma Design Week a sensação é de leveza, conforto e acolhimento. Desta vez é como voltar à casa e abraçar memórias, mergulhar no tempo e na atmosfera mágica que embala todo princípio de sonho. Rebobino a minha trajetória profissional. Faço um percurso inverso onde o passado, astuto, ainda é capaz de desembrulhar todas as novidades e emoções que consolidam o presente. Me detenho numa parada obrigatória: o Salão Satélite. Nele, orbita a minha largada e o traçado de uma história que começou a ganhar contornos há sete anos. Foi meu cartão de visitas. A convite da diretora Marva Griffin tomei lugar no espaço seleto dedicado ao talento dos jovens designers dos cinco continentes. Quem poderia, em início de carreira, desejar mais?

Agora, quando o Salão Satélite celebra 20 anos, uma mostra comemorativa na Fabrica Del Vapore reúne designers por ele projetados e apresentados ao mundo do Design. Cá estou entre os escolhidos, como filho pródigo que à casa torna. É uma honraria ser parte integrante desta edição comemorativa e dividir a mesma exposição ao lado de nomes que têm a minha admiração e respeito. Cada detalhe tem sabor de premiação pela insistência de acreditar e de concretizar sonhos. O Banco Ianomâmi volta à cena, como se nunca dela tivesse ficado ausente. Faz sala com o Tapete Marakatu (desenvolvido com exclusividade para a By Kamy) e a Cadeira Pirarucu, de trama artesanal ainda fresca para o lançamento. O fio da cultura que tomei como matéria-prima ata cada peça.

É o mesmo fio de urdidura das peças que estão no Brazil S/A, na simbólica Universitá Degli Studi Di Milano, e na exposição “Brasile Meticcio”. Outro presente que Milão me reserva, com endereço na Galleria Paola Colombari. Com curadoria e expertise de Paola Colomabari em colaboração com Neia Paz, a mostra expõe através do design com minha assinatura o Brasil de dimensão continental e multicultural. Convida à imersão na formação social que reside na mistura de povos e desdobra-se em tons de pele, enlace de línguas, dialetos, saberes ancestrais e costumes. Um Brasil mestiço. De indígenas, europeus e afrodescendentes que estruturam a matriz da nação com características únicas, oriundas da fusão das referências identitárias. O feito à mão é a digital que valoriza os ofícios herdados dos antepassados. Cada produto narra história, resgata memória e celebra laços de pertencimentos. Design com a aura da mestiçagem que carrego. Para os olhos de Milão e do mundo. Sou grato por estar aqui e agora.
Sérgio Matos: "Milão é um marco na minha história profissional". (Foto: Thayse Gomes)
Banco Ianomâmi.


Cadeira Chita.
Cadeira Cobra Coral.

Pufe Carambola.
Poltrona Morototó.
Cadeira Bakairi.
Cadeira Pirarucu.




quinta-feira, 16 de março de 2017

Mais além do Design

Em Barcelos, Amazonas, as águas do Rio Negro irrigam o Projeto Brasil Original e são fluxo de vida.
Não é unicamente sobre Design. É sobre entrelaçamentos de vidas. Não é só trabalho. São trocas e experiências de valor imensurável. Não é estar longe de casa milhares de quilômetros; mas, chegar perto do que faz bem ao coração. Não é mudar temporariamente do centro urbano - com toda tecnologia e facilidades disponíveis - para comunidades enraizadas na floresta. É conexão com a natureza. Não é mapear outras identidades. É descobrir elos ancestrais e sentir-se parte. Não é ser apenas colaborador na abertura de rotas de transformação social. É deixar-se transformar nas pequenas coisas.

Dia após dia, há dois anos, a consultoria ao Projeto Brasil Original Amazonas (iniciativa do Sebrae) me faz refletir, acreditar com afinco na escolha profissional, avaliar perspectivas, ponderar sobre o que realmente importa, aprender a abrir mão do que resulta desnecessário. Nessa imersão através do Design prendo a respiração ante inúmeras descobertas, sensações, emoções, laços afetivos com lugares e pessoas que congregam uma grande família. Sou alguém melhor graças à essa vivência que aporta sensibilidade diante de propósitos, sonhos, ideais. Os meus e de todos os envolvidos numa grande sinergia.

O projeto é multifacetado. Na criação, nas relações pessoais, no aprendizado mútuo, na simplicidade do cotidiano. Oxigena novos olhares, traz à tona outros pontos de vista. Sublinha o exercício de fazer mais e melhor celebrando os vínculos com a terra, a cultura, os ofícios, os costumes, as histórias mantidas vivas para que as gerações anteriores não desapareçam. É surpreendente em cada etapa e revela o potencial humano e criativo que repousa nas comunidades artesãs de Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Manaus, Benjamin Constant, Atalaia do Norte, Tefé e Nova Esperança.

Ao fim, não é só a culminância de produtos embalados pela aura identitária. É o resgate da autoestima de artesãos com suas origens e o orgulho de ser partícipe dessa ação que impulsiona a economia criativa e a inclusão social. Não é tão somente navegar nas águas do Rio Negro e do Solimões e aportar para cumprir rotinas que materializam desenhos impressos em papel. É apurar o olhar para o fluxo das águas que movem desejos; é respirar a floresta em toda sua riqueza; é ouvir uma lenda com o sotaque da língua tribal. É aprender a desenhar e tramar a vida, um dia de cada vez.  


[English Text]

Beyond the Design

It is not only about Design. It is about intertwining of lives. It's not just work. It is exchanges of experiences with immeasurable value. It is not being away from home thousands of miles; but to get close to what is good for the heart. It is not a temporarily moving away from the urban center - with all the technology and facilities available - for rooted communities in the forest. It is connection with nature. It is not mapping other identities. It is discovering the ancestors and feeling part. It is not just being a collaborator in opening social transformation routes. It's letting yourself turn into little things.

Days after days, two years ago, the consultancy of Amazon Original Brazil Project (a Sebrae initiative) made me think, believe with certain of professional choosing, evaluate perspectives, ponder what really matters, learn to give up what is unnecessary. In this immersion through Design I hold my breath before countless discoveries, sensations, emotions, affective bonds with places and people that makes a great family. I am someone better thanks to this experience that brings sensitivity to purposes, dreams, ideals. Mine and everyone involved in a great synergy.

The project is multi faced. On creation, on personal relations, on mutual learning, on simplicity of everyday life. Oxygenates new looks, it brings up other points of views. It emphasizes the exercise of doing more and better, celebrating the ties with the land, the culture, the crafts, the customs, the histories kept alive so that the previous generations do not disappear. It is surprising at every stage and reveals the human and creative potential that rests in the artisan communities of Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Manaus, Benjamin Constant, Tefé, Atalaia and Nova Esperança.

At the end, is not only the concept of products packaged by the identity aura. It is the rescue of the self-esteem of artisans with their origins and the pride of being part of this action that drives the creative economy and social inclusion. It is not only to navigate the waters of Rio Negro and Solimões and to contribute to fulfill routines that materialize drawings printed on paper. It is clearing the look at the flow of the waters that moves desires; Is to breathe the forest wealth; Is to listen to a legend with the tribal accent. It is learning to draw and plot life, one day at a time.
A piaçava é matéria-prima e o babaçu inspiração na atual etapa do Brasil Original em Barcelos.
A artesã Alva trama a nova coleção para o projeto do Sebrae Amazonas.
"Eu, o Rio Negro e Barcelos"
No Amazonas a natureza inspira uma pausa, um respiro, um suspiro. 


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Quando o design aproxima

Barcelos, no Amazonas: o Rio Negro e a Floresta Amazônica emolduram a riqueza natural da cidade.
A distância geográfica soma 3.100 quilômetros. Uma linha reta que liga Campina Grande – cidade paraibana onde finquei morada – ao município de Barcelos (Amazonas). Sobre o mapa do Brasil o traçado quase conecta os extremos Leste e Oeste. Essa mesma distância cede à afetividade e encurta medidas, tornando-as mais estreitas e menos pertinentes. Abarrota os caminhos do coração com memórias, sorrisos largos, abraços apertados e sonhos estampados nos olhos dos artesãos indígenas e ribeirinhos que integram o Projeto Brasil Original – Artesanato Amazonas. Através da consultoria de design viabilizada pelo Sebrae, eles tornaram-se amigos, irmãos, parceiros na jornada da criação e no compartilhamento dos ofícios e saberes herdados dos antepassados.       

Barcelos é minha próxima parada na retomada da consultoria. Um porto onde me sinto seguro porque lá estou em casa, entre os meus. Já incorporei com clareza cada pedaço das margens do Rio Negro que me levam ao encontro das comunidades assistidas pelo projeto. Gravei com precisão a paisagem e detalhes que nem em sonhos podiam ser mais perfeitos. O nascer e pôr do sol; o canto dos pássaros; o barulho das árvores ao vento; os cheiros; a textura da floresta e o espelho d’água do rio e dos igarapés que reflete minha alegria em fazer do design uma ferramenta de transformação social.

Na cidade com status de primeira capital do Amazonas a piaçava é matéria-prima para o artesanato. Sua resistência confunde-se com a história e organização social de alguns povos da floresta. Na primeira imersão do Brasil Original a cor marrom, a flexibilidade e versatilidade da fibra - sob a habilidade técnica dos artesãos - incorporaram formas colhidas na natureza para objetos que seduziram o consumidor nas feiras de design e loja com o selo do projeto. A fruteira Vitória Régia é um dos ícones e inspira novos produtos com a digital da originalidade.

Nos próximos dias, a identidade que embala o design dos novos produtos elaborados com a piaçava sairá do papel pelo calor das mãos de Antônio e Dinalva, da etnia Tariana, Ângela do povo Baré e Sônia da tribo Baniwa. Mestres do artesanato amazonense que junto a outros nomes tenho o orgulho do convívio e das experiências partilhadas. Pessoas que carrego no peito com a reverência de família. Por elas nutro um sentimento de respeito, gratidão e proximidade. Nenhuma distância geográfica afasta isso.

[English Text]


When design approaches

The geographical distance is 3,100 kilometers. A straight line that connects Campina Grande - city of Paraiba where I settled my address - to the city of Barcelos (Amazonas). On the map of Brazil, the route almost connects the East and West extreme ends.This same distance gives affectivity and shortens measures, making them narrower and less pertinent. It fills the paths of heart with Indigenous and riverine craftsmen who make up the Original Brazil Project – Amazonas Craft. Through the design consultancy, made possible by Sebrae, they became friends, brothers, partners in the journey of creation and in the sharing of the trades and knowledge inherited from the ancestors.

Barcelos is my next stop in the resumption of consulting. A port where I feel safe because there, I feel I’m at home. I had incorporated, with clarity, each piece of the banks of the Negro River that lead me to meet the communities assisted by the project. I recorded the landscape and details that even dreams could not make them much perfect. The sunrise and sunset; the birds singing; the sound made by wind on the trees; the smells; the texture of the forest and the mirror of the river that reflect my joy in making design a tool of social transformation.

In the city first capital of Amazonas, piaçava is a raw material for handicrafts. Their resistance looks like the history and social organization of some forest peoples. In the first immersion of Brasil Original the color brown, the flexibility and versatility of the fiber - under the technical skill of the artisans - incorporates forms harvested from the nature for objects that seduced the consumer in the design fairs and stores with the stamp of the project. The Vitória Régia fruit tree is one of the icons and inspires new products with digital originality.

In the next few days, an identity that packs design of new products elaborated with piaçava, will go out of the paper by the hand warmth of Antônio and Dinalva, of Tariana ethnicity, Ângela from Baré people a Sônia of Baniwa Tribe. Masters of amazon handcraft, that with some other peoples, I have pride of the living and the shared experiences. People I carry on my heart with family reverence. For them I have a feeling of respect, gratitude and closeness. No geographic distance removes this.
A floresta e a cultura dos povos que nela habitam assinalam a identidade do Projeto Brasil Original.
Antônio, da etnia Tariana, é um dos mestres artesãos que trama a piaçava.
Fruteira Vitória Régia: piaçava como matéria-prima e trama de cultura ancestral.