quinta-feira, 6 de abril de 2017

De volta ao começo

Piazza Del Duomo: coração de Milão.
Respiro os ares de Milão. Em mais uma Design Week a sensação é de leveza, conforto e acolhimento. Desta vez é como voltar à casa e abraçar memórias, mergulhar no tempo e na atmosfera mágica que embala todo princípio de sonho. Rebobino a minha trajetória profissional. Faço um percurso inverso onde o passado, astuto, ainda é capaz de desembrulhar todas as novidades e emoções que consolidam o presente. Me detenho numa parada obrigatória: o Salão Satélite. Nele, orbita a minha largada e o traçado de uma história que começou a ganhar contornos há sete anos. Foi meu cartão de visitas. A convite da diretora Marva Griffin tomei lugar no espaço seleto dedicado ao talento dos jovens designers dos cinco continentes. Quem poderia, em início de carreira, desejar mais?

Agora, quando o Salão Satélite celebra 20 anos, uma mostra comemorativa na Fabrica Del Vapore reúne designers por ele projetados e apresentados ao mundo do Design. Cá estou entre os escolhidos, como filho pródigo que à casa torna. É uma honraria ser parte integrante desta edição comemorativa e dividir a mesma exposição ao lado de nomes que têm a minha admiração e respeito. Cada detalhe tem sabor de premiação pela insistência de acreditar e de concretizar sonhos. O Banco Ianomâmi volta à cena, como se nunca dela tivesse ficado ausente. Faz sala com o Tapete Marakatu (desenvolvido com exclusividade para a By Kamy) e a Cadeira Pirarucu, de trama artesanal ainda fresca para o lançamento. O fio da cultura que tomei como matéria-prima ata cada peça.

É o mesmo fio de urdidura das peças que estão no Brazil S/A, na simbólica Universitá Degli Studi Di Milano, e na exposição “Brasile Meticcio”. Outro presente que Milão me reserva, com endereço na Galleria Paola Colombari. Com curadoria e expertise de Paola Colomabari em colaboração com Neia Paz, a mostra expõe através do design com minha assinatura o Brasil de dimensão continental e multicultural. Convida à imersão na formação social que reside na mistura de povos e desdobra-se em tons de pele, enlace de línguas, dialetos, saberes ancestrais e costumes. Um Brasil mestiço. De indígenas, europeus e afrodescendentes que estruturam a matriz da nação com características únicas, oriundas da fusão das referências identitárias. O feito à mão é a digital que valoriza os ofícios herdados dos antepassados. Cada produto narra história, resgata memória e celebra laços de pertencimentos. Design com a aura da mestiçagem que carrego. Para os olhos de Milão e do mundo. Sou grato por estar aqui e agora.
Sérgio Matos: "Milão é um marco na minha história profissional". (Foto: Thayse Gomes)
Banco Ianomâmi.


Cadeira Chita.
Cadeira Cobra Coral.

Pufe Carambola.
Poltrona Morototó.
Cadeira Bakairi.
Cadeira Pirarucu.




quinta-feira, 16 de março de 2017

Mais além do Design

Em Barcelos, Amazonas, as águas do Rio Negro irrigam o Projeto Brasil Original e são fluxo de vida.
Não é unicamente sobre Design. É sobre entrelaçamentos de vidas. Não é só trabalho. São trocas e experiências de valor imensurável. Não é estar longe de casa milhares de quilômetros; mas, chegar perto do que faz bem ao coração. Não é mudar temporariamente do centro urbano - com toda tecnologia e facilidades disponíveis - para comunidades enraizadas na floresta. É conexão com a natureza. Não é mapear outras identidades. É descobrir elos ancestrais e sentir-se parte. Não é ser apenas colaborador na abertura de rotas de transformação social. É deixar-se transformar nas pequenas coisas.

Dia após dia, há dois anos, a consultoria ao Projeto Brasil Original Amazonas (iniciativa do Sebrae) me faz refletir, acreditar com afinco na escolha profissional, avaliar perspectivas, ponderar sobre o que realmente importa, aprender a abrir mão do que resulta desnecessário. Nessa imersão através do Design prendo a respiração ante inúmeras descobertas, sensações, emoções, laços afetivos com lugares e pessoas que congregam uma grande família. Sou alguém melhor graças à essa vivência que aporta sensibilidade diante de propósitos, sonhos, ideais. Os meus e de todos os envolvidos numa grande sinergia.

O projeto é multifacetado. Na criação, nas relações pessoais, no aprendizado mútuo, na simplicidade do cotidiano. Oxigena novos olhares, traz à tona outros pontos de vista. Sublinha o exercício de fazer mais e melhor celebrando os vínculos com a terra, a cultura, os ofícios, os costumes, as histórias mantidas vivas para que as gerações anteriores não desapareçam. É surpreendente em cada etapa e revela o potencial humano e criativo que repousa nas comunidades artesãs de Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Manaus, Benjamin Constant, Atalaia do Norte, Tefé e Nova Esperança.

Ao fim, não é só a culminância de produtos embalados pela aura identitária. É o resgate da autoestima de artesãos com suas origens e o orgulho de ser partícipe dessa ação que impulsiona a economia criativa e a inclusão social. Não é tão somente navegar nas águas do Rio Negro e do Solimões e aportar para cumprir rotinas que materializam desenhos impressos em papel. É apurar o olhar para o fluxo das águas que movem desejos; é respirar a floresta em toda sua riqueza; é ouvir uma lenda com o sotaque da língua tribal. É aprender a desenhar e tramar a vida, um dia de cada vez.  


[English Text]

Beyond the Design

It is not only about Design. It is about intertwining of lives. It's not just work. It is exchanges of experiences with immeasurable value. It is not being away from home thousands of miles; but to get close to what is good for the heart. It is not a temporarily moving away from the urban center - with all the technology and facilities available - for rooted communities in the forest. It is connection with nature. It is not mapping other identities. It is discovering the ancestors and feeling part. It is not just being a collaborator in opening social transformation routes. It's letting yourself turn into little things.

Days after days, two years ago, the consultancy of Amazon Original Brazil Project (a Sebrae initiative) made me think, believe with certain of professional choosing, evaluate perspectives, ponder what really matters, learn to give up what is unnecessary. In this immersion through Design I hold my breath before countless discoveries, sensations, emotions, affective bonds with places and people that makes a great family. I am someone better thanks to this experience that brings sensitivity to purposes, dreams, ideals. Mine and everyone involved in a great synergy.

The project is multi faced. On creation, on personal relations, on mutual learning, on simplicity of everyday life. Oxygenates new looks, it brings up other points of views. It emphasizes the exercise of doing more and better, celebrating the ties with the land, the culture, the crafts, the customs, the histories kept alive so that the previous generations do not disappear. It is surprising at every stage and reveals the human and creative potential that rests in the artisan communities of Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Manaus, Benjamin Constant, Tefé, Atalaia and Nova Esperança.

At the end, is not only the concept of products packaged by the identity aura. It is the rescue of the self-esteem of artisans with their origins and the pride of being part of this action that drives the creative economy and social inclusion. It is not only to navigate the waters of Rio Negro and Solimões and to contribute to fulfill routines that materialize drawings printed on paper. It is clearing the look at the flow of the waters that moves desires; Is to breathe the forest wealth; Is to listen to a legend with the tribal accent. It is learning to draw and plot life, one day at a time.
A piaçava é matéria-prima e o babaçu inspiração na atual etapa do Brasil Original em Barcelos.
A artesã Alva trama a nova coleção para o projeto do Sebrae Amazonas.
"Eu, o Rio Negro e Barcelos"
No Amazonas a natureza inspira uma pausa, um respiro, um suspiro. 


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Quando o design aproxima

Barcelos, no Amazonas: o Rio Negro e a Floresta Amazônica emolduram a riqueza natural da cidade.
A distância geográfica soma 3.100 quilômetros. Uma linha reta que liga Campina Grande – cidade paraibana onde finquei morada – ao município de Barcelos (Amazonas). Sobre o mapa do Brasil o traçado quase conecta os extremos Leste e Oeste. Essa mesma distância cede à afetividade e encurta medidas, tornando-as mais estreitas e menos pertinentes. Abarrota os caminhos do coração com memórias, sorrisos largos, abraços apertados e sonhos estampados nos olhos dos artesãos indígenas e ribeirinhos que integram o Projeto Brasil Original – Artesanato Amazonas. Através da consultoria de design viabilizada pelo Sebrae, eles tornaram-se amigos, irmãos, parceiros na jornada da criação e no compartilhamento dos ofícios e saberes herdados dos antepassados.       

Barcelos é minha próxima parada na retomada da consultoria. Um porto onde me sinto seguro porque lá estou em casa, entre os meus. Já incorporei com clareza cada pedaço das margens do Rio Negro que me levam ao encontro das comunidades assistidas pelo projeto. Gravei com precisão a paisagem e detalhes que nem em sonhos podiam ser mais perfeitos. O nascer e pôr do sol; o canto dos pássaros; o barulho das árvores ao vento; os cheiros; a textura da floresta e o espelho d’água do rio e dos igarapés que reflete minha alegria em fazer do design uma ferramenta de transformação social.

Na cidade com status de primeira capital do Amazonas a piaçava é matéria-prima para o artesanato. Sua resistência confunde-se com a história e organização social de alguns povos da floresta. Na primeira imersão do Brasil Original a cor marrom, a flexibilidade e versatilidade da fibra - sob a habilidade técnica dos artesãos - incorporaram formas colhidas na natureza para objetos que seduziram o consumidor nas feiras de design e loja com o selo do projeto. A fruteira Vitória Régia é um dos ícones e inspira novos produtos com a digital da originalidade.

Nos próximos dias, a identidade que embala o design dos novos produtos elaborados com a piaçava sairá do papel pelo calor das mãos de Antônio e Dinalva, da etnia Tariana, Ângela do povo Baré e Sônia da tribo Baniwa. Mestres do artesanato amazonense que junto a outros nomes tenho o orgulho do convívio e das experiências partilhadas. Pessoas que carrego no peito com a reverência de família. Por elas nutro um sentimento de respeito, gratidão e proximidade. Nenhuma distância geográfica afasta isso.

[English Text]


When design approaches

The geographical distance is 3,100 kilometers. A straight line that connects Campina Grande - city of Paraiba where I settled my address - to the city of Barcelos (Amazonas). On the map of Brazil, the route almost connects the East and West extreme ends.This same distance gives affectivity and shortens measures, making them narrower and less pertinent. It fills the paths of heart with Indigenous and riverine craftsmen who make up the Original Brazil Project – Amazonas Craft. Through the design consultancy, made possible by Sebrae, they became friends, brothers, partners in the journey of creation and in the sharing of the trades and knowledge inherited from the ancestors.

Barcelos is my next stop in the resumption of consulting. A port where I feel safe because there, I feel I’m at home. I had incorporated, with clarity, each piece of the banks of the Negro River that lead me to meet the communities assisted by the project. I recorded the landscape and details that even dreams could not make them much perfect. The sunrise and sunset; the birds singing; the sound made by wind on the trees; the smells; the texture of the forest and the mirror of the river that reflect my joy in making design a tool of social transformation.

In the city first capital of Amazonas, piaçava is a raw material for handicrafts. Their resistance looks like the history and social organization of some forest peoples. In the first immersion of Brasil Original the color brown, the flexibility and versatility of the fiber - under the technical skill of the artisans - incorporates forms harvested from the nature for objects that seduced the consumer in the design fairs and stores with the stamp of the project. The Vitória Régia fruit tree is one of the icons and inspires new products with digital originality.

In the next few days, an identity that packs design of new products elaborated with piaçava, will go out of the paper by the hand warmth of Antônio and Dinalva, of Tariana ethnicity, Ângela from Baré people a Sônia of Baniwa Tribe. Masters of amazon handcraft, that with some other peoples, I have pride of the living and the shared experiences. People I carry on my heart with family reverence. For them I have a feeling of respect, gratitude and closeness. No geographic distance removes this.
A floresta e a cultura dos povos que nela habitam assinalam a identidade do Projeto Brasil Original.
Antônio, da etnia Tariana, é um dos mestres artesãos que trama a piaçava.
Fruteira Vitória Régia: piaçava como matéria-prima e trama de cultura ancestral.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O futuro feito à mão

Dinalva, artesã de Barcelos, Amazonas: habilidade com a trama da piaçava.
O movimento inverso respira cultura. Se interpõe à produção industrial em larga escala, ao magnetismo do tecnológico. O novo tempo cabe na palma da mão. É o artesanal marcando uma nova escala em objetos únicos, com a etiqueta de exclusividade. O feito à mão exibe a originalidade como marca. Conecta o passado e projeta um futuro com abrigo na ancestralidade. Reaviva saberes e ofícios entrelaçados à formação da história social, às memórias afetivas, ao sentimento de acolhida e pertencimento. Configura a identidade territorial em tempos de uma globalização que apaga fronteiras. 

O futuro tem calor humano e se desenha agora, no presente. Enxergo os vestígios e os persigo certo de que trará bons frutos, que agrupará pessoas, que transformará realidades. Vejo os sinais ao longo dos seis anos da abertura do estúdio. Com os pés na estrada do Design gravei lugares na memória, conheci personagens ímpares. Vivenciei ofícios ancestrais nas comunidades artesãs, vi tramas exuberantes, tessituras perfeitas, entalhes vigorosos em objetos que pertencem à vida cotidiana. Senti o sabor de muitas feiras livres, ouvi burburinho com mistura de sotaques, testemunhei tradições com aura sagrada pelos ritos que as embalam. Pisei universos particulares.

Aos meus olhos, o mapa destas experiências exibe a retomada fortalecida do trabalho artesanal. Abraço as consultorias e projetos nas comunidades artesãs como semeadura da economia criativa, do empreendedorismo, do empoderamento social e da valorização identitária. A extensão do país miscigenado é terra farta para inúmeros brasis que resgatam suas origens e fazem dos ofícios e saberes ancestrais ferramentas transformadoras. No novo tempo que se avizinha o luxo traduz o que é único por carregar uma história de vida, um sentimento, uma herança familiar, uma ideia original. Nesse futuro feito à mão projeto sonhos. É onde quero habitar para fortalecer na fusão do design com o artesanato produtos com alma. Com digitais que despertam emoção.

[ English Text ]

The Future made by hand

The inverse movement breathes culture. In between the large scale industrial production, and magnetic technology. The new time fits on the palm of hand. It is the handmade marking a new scale of unique objects, with a labor of exclusiveness. The handmade shows the originality as brand. Connects the past and projects a future of shelter on the ancestry. Revive knowledges and crafts tangled to formation of social history, to affective memories, to the feeling of welcome end belonging. Configures the territorial identity in times of a globalization that erases borders.

The future has human heat and it draws right now, on the present. I see the I see the traces and I am certain that it will bring good fruits, that will bring people together, that will transform realities. I see the signs of long six years of opening the studio. With the feet on the roads of Design, I recorded places on memory, met great people. Lived ancestral crafts on artisan communities, saw lush wefts, perfect tesserae, vigorous carvings on objects that pertain to everyday life. I tasted many free fairs, I heard rumble with a mixture of accents, I witnessed traditions with aura of sacredness by the rites that cradled them. I stepped particular universes.

To my eyes, the map of these experiences shows the strengthened resumption of craft work. I hug de consultancy and projects at artisan community as seeds of creative economy, of entrepreneurship, of social empowerment and identity valorization. The extension of the mixed country is rich land of countless Brazils who rescue their origins and make the ancestral trades and knowledge the transforming tools. In the new time that neighbors the lust, translate that it is unique for carrying a life story, a feeling, a family heritage, an original idea. On this future made by hand, I project dreams. It is where I want to inhabit, on the fusion of design with the hand craft, products with soul. With digital that creates emotion.
Dona Rosa, artesã Tikuna de Porto Cordeirinho, Amazonas: respeito ao sagrado da floresta. 
No Amazonas a cestaria de José Garcia carrega heranças de seus ancestrais.
Em Manaus, Ema é uma das líderes da Amarn, associação que preserva as tradições indígenas.
Sérgio Matos: "O feito à mão projeta um futuro com abrigo na ancestralidade".
Poltrona Acaú: design com digitais das marisqueiras da Praia de Acaú, no litoral paraibano.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Cadeira Buriti: da árvore da vida brota design


O vaivém hipnótico das linhas seduz o olhar. Traça o porte majestoso da Cadeira Buriti, com inspiração enraizada na flora brasileira e na cultura dos povos indígenas e ribeirinhos. O desenho celebra o buritizeiro, imponente palmeira da Amazônia que batiza a peça de mobiliário e enaltece os mitos, os laços de pertencimento, as múltiplas dádivas da chamada “Árvore da Vida”. 

A estética brota na lenda dos índios Tapuia que credita sua origem a um presente de Tupã, entidade sagrada simbolizada pelo trovão. O conto tribal propagado entre gerações narra o desabrochar das folhas verde esmeralda, onde as de localização central formam uma coroa para adornar e proteger a floresta. Nos leitos dos rios e igarapés a palmeira alcança mais de trinta metros de altitude e pode ser vista à distância, reclamando reverência e respeito.

A carga simbólica – somada às nervuras na casca do fruto escarlate – configura o traçado da estrutura elaborada com riqueza de detalhes. O movimento curvilíneo do aço exibe perenidade. O metal envolto pela amarração de corda naval estabelece harmonia na forma ora enérgica, ora sutil. Encosto e assento coroam a poesia do trabalho artesanal; o fio da ancestralidade presente na crença que conecta céu, terra, deus e homens. Sob a criação revestida de contemporaneidade reside o código frondoso da copa do buritizeiro que abriga função, estética e memória. Na simplicidade, o design de alma brasileira cultua nobreza e repousa à sombra de uma palmeira. 


[ English Text ]

Buriti Chair

The hypnotic lines shuttle seduces the look. It traces the majestic size of the Buriti Chair, with inspiration rooted in the Brazilian flora and the culture of the indigenous and riverside peoples. The design celebrates the buriti tree, imposing palm tree of the Amazon that baptizes the piece of furniture and exalts the myths, the bonds of belonging, the multiple gifts of the call “Tree of Life”. 

The aesthetics springs from the legend of the Tapuia Indians who its origin comes of a gift from Tupã, a sacred entity symbolized by thunder. The tribal tales between generations narrates the blossoming of the emerald green leaves, where the central located leaves form a crown to adorn and protect the forest. In the beds of rivers and streams the palm tree reaches more than thirty meters of altitude and can be seen from a distance, demanding respect and reverence.

The symbolic burden – added by the scratches of the fruit red shell – configures the trace of an elaborated structure with a richness of details. The curve movement of the steel shows perenniality. The metal wrapped by the mooring of naval rope establishes harmony in the sometimes energetic, other times subtle form. The backrest and the seat crowns the poetry of artisanal work; The thread of ancestry present in the belief that connects heaven, earth, god and men. Underneath the contemporaneous creation, lies the leafy forms of buriti tree that houses function, aesthetics and memory. In simplicity, the design of Brazilian soul worships culture and rests under the shadow of a palm tree.
Fruto do buritizeiro (Foto: reprodução)
Palmeira Buriti: imponência na Floresta Amazônica e Cerrado brasileiro (Foto: reprodução)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vida longa à regionalidade, às tradições

Em Campina Grande (PB), o Parque do Povo é cenário do Maior São João do Mundo.

A regionalidade está no ar. Porque Junho tem um quê de magia que faz o Nordeste transbordar em referências da cultura ancestral. É o mês da natividade desta porção de terra brasileira que adotei como morada e onde as simbologias afloram para recordar o fio da meada com as origens. Tempo de colheita da terra e da alma. De celebração e reencontros ungidos pelo fogo, fé, ritos, mesa farta. Cores, músicas, danças, risos extravagantes e orações silenciosas estão no mesmo caldeirão das tradições. A fervura é a da miscigenação, da pluralidade dos povos, dos tons de pele, dos sotaques, dos costumes, do religioso e profano.

Difícil de explicar como as festividades aguçam os cinco sentidos. Invadem corpo e coração no misto dos cheiros, sabores, sensações e estampidos.  A tríade dos santos católicos  - Antônio, João e Pedro - toma assento no mesmo espaço dos cultos pagãos em agradecimento à colheita, à fertilidade da mãe Terra, ao alimento. Tudo é sagrado. Das bandeirolas e balões coloridos que se agitam ao vento às fogueiras que conectam terra e céu através da fumaça que incendeia o ambiente. Do banquete onde o milho é protagonista ao xote, forró, xaxado e baião que exorcizam tristeza no compasso da zabumba e gemido da sanfona. Os altares das igrejas e os palcos em praça pública dividem reverências.  

Testemunhar essa explosão cultural na cidade de Campina Grande, na Paraíba, é um privilégio. Converto em aprendizado inesgotável porque a cada ano tudo ressurge em novas perpectivas, como um caleidoscópio. Faço uma imersão nos detalhes, nos códigos, nas entrelinhas e tramas que revestem festa tão grandiosa. Respiro a identidade territorial onde habita e pulsa inspiração para o design. A Poltrona Balão, a Cadeira Chita, a Poltrona Balaio e o Balanço Bodocongó são crias dessa cultura fumegante. Oxalá ela não pare de arder e meu olhar não perca o brilho, a centelha da criação.

[ English Text ]

Long Live to regionality, to traditions

Regionality is in the air. Because June has a trace of magic that made Northeast overflow in references of ancestral culture. It is the month of nativeness of this portion of Brazilian land I adopted with origins. Time of harvest of the land and soul. Of celebration and meeting by the fire pit, faith, rites, dinner table full. Colors, music, dances, extravagant loughs and silent prayers are in the same cauldron of traditions. It boils miscegenation, plurality oh people, of skin tones, of accents, of religious and profane.

It is hard to explain how festivities sharpen the five senses. Invades body and heart, in the mix of smells, flavors, feelings and noises. The triad of Catholic saints – Anthony, John and Peter – takes seat at the same spot of pagan rituals to thank the harvest, the fertility of Mother Earth, for the food. Everything is sacred. Of flags and colorful balloons that are shaken by the wind, the fire pits that connects earth and heaven through the smoke burning the ambient. Of the banquet, which corn is the protagonist to ‘Xote’, ‘forró’, ‘xaxado’ and ‘baião’ that exorcises sadness in pace of zabumba e moaning of the accordion. Those church altars and open square stages divide obeisances.

Testify to this cultural explosion in  Campina Grande city, at Paraíba, is a privilege. I convert in unstoppable learning because in each year everything rises in a new perspective, like a kaleidoscope. I emerge in details, in codes, between the lines and plots that cover such a great party. I breath territorial identity where inhabits and pulses inspiration to design. The Balão Armchair, the Chita Chair, the Balaio Armchair and Bodocongó Swing are creations of this smoking culture. I hope is does not stop burning and my look doesn’t lose shine, the spark of creation.







terça-feira, 24 de maio de 2016

Traçado de Gratidão

"O traço do design abriga um aprendizado perene e não canso de ser grato"
A palavra gratidão é meu traço. Firme e enérgico para esboçar quanto o design está entrelaçado ao que sou agora. A profissão escolhida embala um presente valoroso: o patrimônio cultural de um Brasil que não se esgota em seu território de milhões de metros quadrados. Presente tangível que alimenta os sentidos e indescritível nas emoções e sentimentos que afloram perante as tradições arraigadas na mestiçagem. Surpresas inesgotáveis nas andanças que descortinam lugares, histórias, paisagens e personagens nunca antes imaginados. 

Na rota da criação, as descobertas se avolumam em experiências que são espelhos. Refletem meus muitos eus. Mato-grossense de nascimento sou de cada pedaço deste País. O solo que piso é minha identidade, minha casa de portas abertas, meu horizonte e remanso. Ora paraibano, amazonense, paulista. Outras vezes catarinense, pernambucano, paraense, carioca... Sou Norte e Sul, de corpo e alma.  E destas origens e pertencimentos nutro o desenvolvimento de produtos, abasteço o novelo criativo com linhas colhidas das múltiplas identidades locais. Tudo é convertido em memória e alimenta um banco de dados que é mais que fotografia digital capturada em tela touch. Os cliques não acompanham o ritmo disparado do coração diante das comunidades artesãs, das florestas sagradas, da imensidão dos rios, das praias de areias intocadas, da arquitetura eclética que sussurra a mistura dos povos. 

O patrimônio imaterial e todo o arcabouço de simbologias nele contido não estão nos pixels das imagens que documentam meus passos pelos muitos brasis. É como um flash, uma aura que conecta sensações e remonta ao momento vivenciado. Estende uma ponte para riquezas encontradas na simplicidade das pessoas, nos seus ofícios, dentro de abraços fraternos, no brilho dos olhos, nos sorrisos cativantes, na recepção calorosa, nos cantos ancestrais de boas-vindas, nas mãos elevadas que emanam energias positivas e distribuem bênçãos. O traço do design abriga um aprendizado perene e não canso de ser grato.

[ English Text ]


Trace of gratitude

The word gratitude is my trace. Firm and energetic to say how much design is tangled by who I am today. The chosen profession packs a precious gift: the cultural heritage of a Brazil that does not run out it’s territory of millions of square meters. Tangible gift which feeds the senses and indescribable emotions flowers by the traditions rooted on miscegenation. Inexhaustible feelings from the walkings that reveals places, histories, landscapes and characters never once imagined.

On the route of creation, the discoveries swells in experiences like mirrors. Reflex myself. Mato Grosso born, I am a piece of every part of this country. The soil I step on is my identity, my home of open doors, my horizon. Part time from Paraíba, from Amazon, from São Paulo. Other times I’m from Santa Catarina, Pernambuco, Pará or Rio de Janeiro. I am from North and South, of body and soul. And these origins and neutral belonging, I nourish the products developments, fill the creative story with harvested lines from multiple local identities. Everything is converted in memories, feeding the photo stock, that are more than digital photographs captured by a touch screen. The clicks doesn’t accompany the rhythm of my heart, before the artisan communities, of sacred forests, huge rivers, of untouched beaches and sands, of eclectic architecture that whispers the peoples miscegenation.

The immaterial patrimony and all the framework of symbologies contained in it, aren’t at the pixels of images that documents my steps through the many Brazil. Is like a flash, an aura connecting feelings and builds the lived moment. Makes a bridge to worthiness found in the simplicity of the people, in their work, between fraternal arms, in the brightness in the eyes, big smiles, in the warm welcome, in the high hands sending good energy and blessing. The trace of design gives me perennial learning, and I am not tired to be thankful.
Benjamin Constant, Amazonas: recorte de um Brasil imerso na cultura mestiça.
O curso do Rio Negro conduz ao mergulho nos saberes e ofícios artesanais. 
Curumins do Amazonas: a infância tem seu tempo e tradições.
Dona Rosa, artesã da etnia Tikuna, em Porto Cordeirinho, no Amazonas: generosidade em cada gesto.
Cariri Paraibano: o céu azul e o solo árido emolduram inspiração.  

terça-feira, 19 de abril de 2016

Design na rota da cultura


Pé na estrada é a marca do Estúdio Sérgio J. Matos para nutrir o design com identidade.

O traço segue os vestígios da cultura. Envereda pela regionalidade e celebra as manifestações populares no chão de terra batida. Transita entre estandartes e bandeirolas coloridas que se agitam ao vento anunciando ritos e tradições que narram a formação social brasileira. O desenho esbarra na estética que transborda identidade, onde a miscigenação expõe a mistura de raças e costumes que só a brasilidade contém. Esboça formas elaboradas no fazer artesanal que exaltam a exclusividade gerada no calor das mãos.

Essa é a rota do design adotada pelo Studio Sérgio J. Matos. Desde que abrimos as portas à criação – em novembro de 2010 – colocamos os pés na estrada para viver experiências de um Brasil multicultural que tem muito mais a revelar além dos livros e dos cartões postais. Lançamos o olhar para o entorno - que de tão próximo torna-se invisível – e para horizontes longínquos incrustrados entre lendas e tradições de sua gente. Acumulamos assim um punhado de memórias. São paisagens, rastros da fauna, cores e texturas da flora, festas de rua, burburinhos, geografias habitadas por personagens empenhados em manter vivos os saberes e ofícios herdados dos antepassados. Artesãos de habilidades ímpares.

Todos estes elementos e referências constituem nossa bagagem. Fazem parte de um arquivo que inspira o desenvolvimento de produtos com densidade simbólica e assinatura do feito à mão. Cada poltrona, mesa, cadeira, banco, luminária, fruteira e vaso que integra nosso catálogo traduz a carga identitária da brasilidade descoberta em um momento de emoção e encantamento. Objetos que carregam laços de pertencimento, extratos regionais e conexões do passado com o presente. Design com valor patrimonial. 

[ English Text ]


Design at the Culture route
The line follows the traces of culture. Leans towards regionality and celebrates the popular demonstrations in the dirt floor. It goes between colored banners and pennants that flutter in the wind announcing the­ rites and traditions that narrate the Brazilian social formation. Design touches on the aesthetic overflowing identity, where miscegenation exposes the mixture of races and customs that contains only Brazilianness. Outlines ways to elaborate on handmade extolling the uniqueness generated in the heat of the hands.
This is the route adopted by Sergio J. Matos Studio. Since we opened the door for creation - in November of 2010 - we put our feet on the road, to live experiences of a multicultural Brazil, which has much to prove beyond books and postcards. We launched a look at the surroundings - that if so close, it becomes invisible - and far horizons encrusted between legends and traditions of its people. This way, we accumulated a handful of memories. There are landscapes, wildlife trails, colors and textures of the flora, street parties, rumbles, geographies inhabited by characters committed to keeping alive the knowledge and inherited crafts ancestors. Craftsmen with unique skills.

All these elements and references are our experience. They are part of a file that inspires the development of products with symbolic density and handmade signature. Every chair, table, bench, lamp, fruit bowl and vase, included in our catalog reflects the identity load of Brazilianness discovered in a moment of excitement and enchantment.
Poltrona Acaú: a inspiração vem do mar, dos corais da Praia de Acaú, no litoral paraibano.
O floral da chita dá forma à Luminária Moringa.
A trama artesanal da Poltrona Caçuá celebra tradições, remete à regionalidade.
Banco Afoxê: design que ressoa a festejos de rua e ritos de fé.
A Cadeira Chita guarda memórias dos festejos forrados com o tecido popular.
Colheres de pau são a matéria-prima do Balanço Bodocongó.
A atmosfera dos festejos juninos abriga a criação da Poltrona Balão.
Banco Xique-xique:a natureza árida é terreno fértil para o design que traduz regionalidade. 
O inseto de porte elegante - presente nos tabuleiros do Nordeste - inspira design.